segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Michael Sandel:professor de filosofia em Harvard diz que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate público

Michael Sandel

O professor de filosofia em Harvard diz que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate público – mesmo que tenham origem na fé.

A sociedade brasileira se acomodou perigosamente a uma ideia. quem não pode pagar um colégio particular não tem como garantir aos filhos educação de qualidade. Convivemos com situações variadas em que o dinheiro manda: com ele, é possível eleger políticos, passar à frente da fila em parques de diversões e até adquirir o direito de emitir poluentes no ar comprando créditos de carbono. O fenômeno não é só brasileiro. Em diversos países, ricos e pobres, experimentam-se os limites do poder do dinheiro para que caçadores possam caçar, crianças sejam incentivadas a ler mais e pacientes consigam atendimento médico decente. Um dos filósofos mais populares do mundo, o americano Michael Sandel, acha que estamos indo rápido demais.


“Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido, e não tivemos, nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado”, afirma Sandel, professor na Universidade Harvard. Ele acha que usar os mecanismos de mercado em aspectos variados da vida é um exagero dos economistas. Ele se opõe a pesquisadores como o ganhador do Nobel de Economia Gary Becker, maior estrela de uma corrente de pensamento que inclui, entre outros, os brasileiros Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro Rodrigues, autores de Sob a lupa do economista.

Sandel, um filósofo de fala pausada, virou celebridade por causa da repercussão de seu curso “Justiça”, à disposição na internet. Em seu livro mais recente, O que o dinheiro não compra (Editora Civilização Brasileira), Sandel defende um resgate dos princípios e das convicções morais diante da lógica de mercado, em contraponto aos que pregam soluções técnicas e ênfase apenas nos resultados. Nessa defesa, faz propostas polêmicas, como acolher no debate público as convicções religiosas. Sandel estará no Brasil em agosto, a convite da consultoria Amana Key, para apresentar palestras em Fortaleza, São Paulo e Brasília.

ÉPOCA – O cidadão comum precisa fazer escolhas sobre questões cada vez mais complicadas, relacionadas a economia, meio ambiente, saúde pública, tecnologia. A filosofia pode nos ajudar?
Michael Sandel – Sim, potencialmente. A filosofia pode contribuir com a cidadania da seguinte forma: ser um bom cidadão é mais do que votar no dia da eleição. O cidadão deve se manter informado sobre as questões públicas, debater com outros cidadãos sobre o bem comum, ajudá-los a formar as decisões deles. E o único jeito de deliberar sobre o bem da coletividade é encontrar, logo abaixo da superfície de nossas discordâncias políticas, os princípios importantes que temos em comum – justiça, equidade, liberdade, democracia. Temos de discutir quão diferentes são nossas concepções de justiça e liberdade, e essas questões são filosóficas. Tento promover a ideia da filosofia pública, excitante, desafiadora e acessível a todos os cidadãos.

ÉPOCA – O senhor vem tratando dessas questões complicadas em suas aulas, e com elas consegue empolgar alunos jovens. O que o senhor aprendeu, como professor, nesses anos em que ministra o curso de filosofia política?
Sandel – Uma das mudanças mais dramáticas ao longo da história do curso foi que, no início, ele era ministrado na universidade, para pessoas que se reuniam num anfiteatro. Nos últimos anos, as aulas completas foram divulgadas pela internet e pela televisão, e o curso se tornou um fenômeno global. O resultado é atordoante, além de qualquer expectativa que eu tivesse. O que aprendi, ao interagir com pessoas de culturas e origens muito diferentes, foi tratar o mesmo tópico de muitas perspectivas distintas. Em agosto, vou ao Brasil e quero saber as visões e as opiniões das pessoas aí sobre a justiça, a liberdade e o bem comum. Outra mudança que fizemos ao longo dos anos: os filósofos que estudamos continuam basicamente os mesmos desde o início do curso, mas os eventos que usamos como exemplos vêm mudando. O jeito que achei de envolver os estudantes foi fazer com que as leituras filosóficas, os conceitos e as ideias, muitas delas abstratas e difíceis, conectem-se com dilemas contemporâneos, controversos, desafiadores. Sobre esses dilemas, todo mundo tem opinião, mesmo que nunca tenha estudado filosofia. O jeito de atrair o estudante é mostrar que as opiniões dele estão conectadas às ideias que os filósofos vêm desenvolvendo há séculos. Isso tem muito a ver com engajar os cidadãos. Espero que a filosofia nos ajude a ter melhores ideias no debate público.

ÉPOCA – No Brasil, há grupos crescentes de cidadãos que definem suas atitudes na vida, além de suas escolhas eleitorais, de acordo com a orientação religiosa. Isso traz algum perigo para a vida pública?
Sandel – É uma questão complicada. A relação entre política e religião tem uma história longa e difícil. Os filósofos políticos debatem há muito tempo qual seria a relação adequada entre as duas, com duas preocupações principais. Uma é que as convicções religiosas sejam intolerantes, dogmáticas, estreitas, e tragam isso para a política. A segunda preocupação é que, como as sociedades modernas abrigam muitas diferenças religiosas, trazer essas divergências para a política poderia gerar discordâncias irremediáveis dentro do debate público. Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião pode trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático. Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas. Não acho que devamos discriminar as origens das convicções ou excluir uma delas. O que importa é o debate ser conduzido com respeito mútuo.

ÉPOCA – Além do componente religioso, há no debate público atual nos Estados Unidos um tanto de ressentimento contra a lógica de mercado. Hoje, o senhor vê mais força no avanço do livre mercado ou no clamor popular contra ele?
Sandel – Vejo força nos dois. O objetivo de meu livro é encorajar e inspirar o debate público sobre o mercado e a sociedade. Nas últimas décadas, vivemos um período de triunfalismo do mercado. Mas o papel dos mecanismos de mercado cresceu e avançou para além dos campos do bem-estar material – chegou às relações pessoais, saúde, educação, vida cívica. Quero provocar agora o debate que deveríamos ter tido e não tivemos nas últimas décadas: onde deve e onde não deve valer a lei de mercado? Se você pergunta se o livro é um alerta sobre o papel do dinheiro especificamente nos Estados Unidos, acho que os acontecimentos que descrevo representam uma tendência geral. Certo, são mais evidentes, mais traumáticos nos Estados Unidos do que na maioria dos outros países. Acredito, no entanto, que a mudança em andamento nos países desenvolvidos cria as mesmas questões e desafios também nos países em desenvolvimento economicamente bem-sucedidos. Uma pergunta vale para todas essas nações: queremos ser uma sociedade que conta com a economia de mercado ou uma sociedade que é um mercado? A economia de mercado é um instrumento para alcançar o bem público, uma ferramenta para a organização da produção. Uma sociedade mercado é algo diferente, em que tudo está à venda, em que as relações de mercado governam cada aspecto da atividade humana. Em muitas nações, não só nos Estados Unidos, há uma tendência de transformar uma sociedade com economia de mercado em uma sociedade mercado.

ÉPOCA – Qual o problema em usar mecanismos como uma empresa pagar pela proteção ambiental em outro lugar e assim ganhar o direito de poluir, ou pagar para uma criança ler, se os resultados finais forem menos poluição global e as crianças lendo mais?
Sandel – Algumas vezes, os mecanismos de mercado podem ser eficazes. Não argumento contra todos os usos desses mecanismos. Mas sempre que usamos incentivo financeiro para resolver problemas sociais, para obter ganhos para a sociedade, temos de considerar o efeito desses mecanismos nas atitudes e nos valores que estamos tentando cultivar. No caso de pagar a uma criança US$ 2 por livro lido, realmente acontece que a criança lê mais livros – e também que as crianças que liam anteriormente passam a ler livros mais curtos. Como o dinheiro afetou a atitude da criança em relação à leitura e ao aprendizado? É provável que ela passe a considerar a leitura como um trabalho a fazer em troca de pagamento. Se isso acontecer, o incentivo financeiro comprometeu o amor pela leitura e pelo livro. Meu argumento não é contra o mercado, e sim a favor das atitudes e valores com que todos nos preocupamos.

ÉPOCA – O senhor afirma haver uma conexão entre a disseminação dos mecanismos de mercado para áreas diversas e o aumento da corrupção. Há algum aumento perceptível da corrupção nos últimos anos?
Sandel – A corrupção tem muitas fontes. Uma fonte é a concentração de poder político sem a correspondente obrigação de prestar contas, são as instituições políticas isoladas do cidadão. Outra fonte é o poder do dinheiro, e permitir que ele domine aspectos da vida pública que não têm a ver com o mercado. A vida cívica e a política deveriam ser orientadas para o bem comum. Mas, crescentemente, o dinheiro domina a representatividade nas instituições políticas.
Revista Época, 16 de julho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rio+20 simboliza oportunidade de engajamento para marcas

Rio+20 simboliza oportunidade de engajamento para marcas

Evento realizado este mês aumenta o destaque de empresas como Natura, CPFL Energia e Walmart, que dedicam esforços para incluir a preocupação sócio-ambiental em seu planejamento

Por Com:Atitude, do Mundo do Marketing | 11/06/2012

pauta@mundodomarketing.com.br

rio+20,sustentabilidade,marcas,com:atitudeAo assumir compromissos diante de causas relevantes para seus stakeholders e, desta forma, concretizar plataformas estruturadas de atitude, uma marca não apenas dá um passo à frente na tangibilização de suas crenças e promessas, mas também amplia seu potencial de engajamento.

Com maior frequência, a necessidade de criar vínculos com diferentes público em torno de um propósito compartilhado mostra-se como algo mandatório para as corporações. E, quando estas questões são de largo impacto, esta demanda torna-se ainda mais evidente – como é o caso, por exemplo, do universo temático da Rio+20.

Muito se fala sobre a articulação governamental ao redor da conferência, mas ações que integrem diferentes setores são fundamentais para que o sucesso do encontro seja pensado em um patamar superior.

Se imaginássemos uma tag cloud para representar os primeiros anos do século XXI, a palavra “sustentabilidade” apareceria em letras garrafais. O termo está por todos os lados, da reunião de condomínio às decisões de Estado, mas sua onipresença ainda está longe de se traduzir em uma atuação organizada por parte das empresas, que têm papel decisivo neste processo. A realização da Rio+20, entre 13 e 22 de junho, é uma tentativa de cobrir este e outros lapsos, aprofundando o debate e a necessidade de engajamento entre Estado, corporações e sociedade civil.

O encontro marca duas décadas da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92) e pretende lançar uma perspectiva consistente para os próximos 20 anos. Entender quais são as lacunas na implementação de ações sustentáveis e apontar alternativas de atuação para cada agente da sociedade é um dos desafios da conferência. Além de avaliar o que foi feito até agora, o encontro convoca governos, ONGs e empresariado a participar das discussões que vão determinar a agenda desta nova fase.

Para isso, serão abordados dois temas principais: “Economia Verde no Contexto do Desenvolvimento Sustentável e da Erradicação da Pobreza” e “Estrutura Institucional para o Desenvolvimento Sustentável”. A participação das empresas nas discussões é fundamental não só pelo aporte que os grupos podem dar ao plano de desenvolvimento, mas porque os debates devem indicar caminhos sobre como fazer negócios de uma maneira mais consciente – e por que não, mais lucrativa – daqui para frente.

“As empresas estão gradualmente mudando seus processos produtivos para ser mais eficientes e podem fazer muito mais desde que as condições locais e globais sejam mais favoráveis, seja com incentivos por meio de regulação das atividades mais sustentáveis, seja com a retirada de incentivos àquelas atividades que não são sustentáveis”, afirma Henrique Leal, gerente-executivo do Instituto Ethos, uma das instituições mais ativas entre as ONGs brasileiras no engajamento em torno da conferência.

No último ano, o Ethos elaborou um conjunto de propostas para a implementação do desenvolvimento sustentável na economia e política nacionais e globais. O documento foi preparado com a colaboração de seis grandes empresas – Alcoa, CPFL Energia, Natura, Vale , Suzano e Walmart – e será atualizado entre 11 e 13 de junho, na conferência anual do instituto, em São Paulo. Da conferência serão extraídos compromissos empresariais e sugestões para os 10 temas que o governo brasileiro escolheu para debater com a sociedade civil entre 16 e 19 de junho, nos Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável, dentro da programação da Rio+20.

Inovação com valor de mercado
Depois de 40 anos da Conferência de Estocolmo, que inaugurou a série de encontros mundiais em torno da sustentabilidade, ainda há questões essenciais que não ganharam a devida atenção por parte do Governo e da sociedade civil. Uma delas é a implantação de um modelo econômico que signifique menor impacto ambiental, maior ecoeficiência e redução da pobreza e das desigualdades. “Todos sabemos que isso depende de inovação e que inovar não é só descobrir uma coisa nova, é descobrir algo que tenha valor de mercado, o que é uma atividade típica do mundo empresarial”, diz o representante do Ethos.

É neste contexto que começam a ganhar destaque empresas que dedicam esforços a incluir a preocupação sócio-ambiental em seu planejamento. A CPFL Energia, por exemplo opta pela geração de energia renovável e chega a gerar mais de 30 MW por quilômetro quadrado de área inundada. Já a Natura se destaca por buscar o menor impacto possível na produção e por investir em uma política de geração de valor para as comunidades que preservam os insumos utilizados em seus produtos.

Outra companhia que não está mais na fase de gestão de riscos e já consegue inovar para compartilhar valor com a sociedade é o Walmart, que desenvolveu lojas verdes nas quais os conceitos de redução de materiais e destinação de resíduos são aplicados de forma modelar. “O país precisa de empresas responsáveis socialmente e ambientalmente que não estejam aqui só para realizar o negócio, mas sim para contribuir para o desenvolvimento. Por isso, nosso plano de negócios e estratégia de sustentabilidade caminham sempre em paralelo”, afirma Henrique Rzezinski, vice-presidente para assuntos corporativos da BG Brasil.

A multinacional inglesa de petróleo e gás natural se prepara para apresentar, na Rio+20, um programa de ensino que envolve ciência, tecnologia, engenharia e matemática e deve ser aplicado em instituições de ensino brasileiras, em parceria com secretarias de educação. A empresa também investiu US$ 100 milhões em bolsas de estudos do programa Ciência sem Fronteiras, que o Governo Federal implantou neste ano para promover o intercâmbio de alunos em instituições estrangeiras.

Avaliar esses progressos já realizados e buscar um comprometimento mais massivo do empresariado com a agenda sustentável é um dos focos do Fórum de Sustentabilidade Corporativa da Rio+20. Sob o tema “Inovação e Colaboração para o Futuro que Queremos”, o fórum promovido pelo Pacto Global das Nações Unidas espera reunir 2 mil representantes em workshops e mesas-redondas para tratar de temas como Economia e Finanças do Desenvolvimento Sustentável; Energia e Clima; Urbanização e Cidades; Água e Ecossistemas; Agricultura e Alimentação e Desenvolvimento Social.

Economia verde pela erradicação da pobreza
No Brasil e em outros países em desenvolvimento, a busca pela “economia verde” é indissociável do desafio da erradicação da pobreza e da redução da desigualdade social. “As grandes empresas que vão sobreviver a essa prova de consolidação são aquelas que conseguirem integrar na sua gestão a maneira de fazer seu negócio à maneira de se relacionar com a sociedade. Às vezes um grupo investe milhões em um projeto no campo social, cultural, ou ambiental, mas não cuida do impacto que seu negócio gera no meio ambiente”, avalia Fernando Rossetti, secretário-geral do GIFE – Grupo de Instituições, Fundações e Empresas.

Com a missão de difundir conceitos e práticas do uso de recursos privados para o desenvolvimento sustentável, o GIFE conta com 142 associados de origem empresarial, familiar, independente e comunitária que, juntos, investem cerca de R$ 2 bilhões por ano na área social. Deste investimento, o setor que mais ganhou atenção na última década foi o meio ambiente, que tem tido seus recursos duplicados a cada dois anos.

Uma das expectativas tanto do GIFE quanto do Instituto Ethos em relação ao Fórum de Responsabilidade Corporativa da Rio+20 é a definição de bases mais sólidas para a inovação e o incentivo às parcerias público-privadas. O entendimento geral consiste na ideia de que se faz necessário um marco regulatório mais favorável para que as empresas invistam mais sem perder competitivdade.

“Quando falamos de política industrial, o elemento sustentabildiade tem que estar presente, inclusive por uma questão de competitividade do país e do seu setor industrial. O Brasil possui posição privilegiada para ser não só protogonista como líder dessa nova economia, contando com credenciais que são diferenciais competitivos aptos para se tornarem negócios verdes”, aponta Henrique Leal.

Dentre essas “credenciais” brasileiras está o maior potencial de biodiversidade do planeta e uma matriz energética equilibrada, com mais de 80% de sua produção gerada por fontes renováveis, além de um enorme potencial eólico, solar, de mares, de água doce e de agro-negócios. “Qualquer produto brasileiro já é mais sustentável do que um europeu só por ter sido fabricado com uma matriz elétrica desta qualidade. O Brasil precisa saber capitalizar isso, avançar nessa direção e ser líder de produtos sustentáveis para o mundo”, resume.

*Por Maria Lutterbach. Esta reportagem foi publicada originalmente no portal Com:Atitude, da Edelman Significa, e agora no Mundo do Marketing de acordo com parceria que os dois portais mantêm.

http://mundodomarketing.com.br/reportagens/marca/23957/rio-20-simboliza-oportunidade-de-engajamento-para-marcas.html